top of page
Buscar

Ítalo, o Senhor do Tempo

Atualizado: 24 de jun. de 2021


Adilson Marcelino* / Jornalista

Minha porta de entrada para o jornalismo cultural foi o cinema, e lá se vão 30 anos. Nessas três décadas, como todo profissional da cultura, transitei por várias áreas: música, dança, circo, literatura, artes visuais e, escuro, o teatro. Posso dizer que durante 16 anos, de 2000 a 2016, as artes cênicas tiveram um espaço fundamental na minha vida e só equiparado ao cinema, que permaneceu no mesmo patamar de importância desde então.

Nessa uma década e meia, trabalhei com boa parte dos grupos de teatro, e também alguns artistas independentes, de Belo Horizonte. E pude ver, de perto e de dentro, o quanto a cena da capital é diversa e forte. Pude conviver e atuar, a partir dos serviços de assessoria de imprensa, com gerações e estilos diversos. E, modéstia à parte, e sem arrogância, só trabalhei com quem eu quis.

Não me lembro a partir de quando e em quantos espetáculos do Grupo Intervalo trabalhei, mas sei que, levado pelo meu amigo Marco Túlio Zerlotini, integrante do grupo, por lá permaneci até o último, em maior ou menor grau de atuação. Era nítido, à época, mas ainda com mais amplitude com os olhos de hoje, como estar ali, junto ao Intervalo, era como estar em uma transversal do tempo. Pois tanto a estética quanto a ética do fazer teatral que permeavam aquilo tudo eram quase como um estado de suspensão. Suspensão de tempo como a configurar-se em carta de intenções, de proposições, de significados e de significantes.

Esse estado de coisas estava personificado em estado bruto, e também etéreo, na persona de Ítalo Mudado.

Ao acompanhar alguns ensaios no teatro, e também estive na casa dele, era perceptível na atmosfera instaurada que ali estava um Homem de Teatro. A persona de Ítalo, materializada em sua postura, na forma como ficava sentado na cadeira do teatro em observância, no seu movimentar-se e na entonação de sua voz eram não menos clássicos que os textos que encenava.

É bom dizer que, no caso de Ítalo, a expressão encenador é de outra pipa, não subjugada às definições modernas que apontam para afirmação e cristalização de estilo. O encenador aqui diz respeito intrinsecamente à cena, em como ela se materializava no palco, pois Ítalo Mudado me pareceu, desde sempre, um Diretor. Aquele que dava norte não só a equipe para botar de pé um espetáculo, como também uma bússola existencial, a partir do generoso compartilhar de seu conhecimento fundante.


Naqueles anos, em algumas vezes, indo de um espetáculo a outro, vinha-me a incômoda sensação de estar presenciando espetáculos feitos para pares, para bolhas, essa expressão tão em moda e definidora dos tempos de hoje e suas redes falsamente sociais.

Já com o Intervalo, já com o teatro de Ítalo, a impressão instaurada era a de que aqueles espetáculos estavam sendo feitos pelo e para o Teatro. Em sua homenagem, em sua honra, em sua perpetuação e em sua celebração.

Ítalo Mudado amava o teatro e continua amando, pois, Senhor do Tempo, eternizou-se.


*O autor foi convidado e cedeu o artigo gratuitamente.



54 visualizações1 comentário

1 Comment


Lindo texto!!!

Like
bottom of page